22 maio, 2019

Entrevista - Débora Garofalo

 (foto: arquivo pessoal)

A professora Débora Garofalo, finalista do Global Teacher Prize 2019, prêmio internacional que reconhece as melhores práticas e profissionais de educação, com seu projeto de Robótica com Sucata, representou muito bem o Brasil lá fora. Seu projeto, desenvolvido com alunos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Almirante Ary Parreiras, em São Paulo, lhe conferiu o Prêmio Professores do Brasil e a colocou no rol dos dez melhores educadores do mundo. Muito além disso, transformou a vida de jovens alunos e da comunidade onde vivem. Nesta entrevista concedida à Impressão Pedagógica ela conta um pouco da sua experiência. Confira!

Por Naira Passoni

1. Professora, você lançou um olhar para um problema mundial, que é o lixo, e conseguiu encontrar nisso uma oportunidade. Como foi o despertar dessa ideia e como isso se tornou um projeto?

O despertar para essa ideia surgiu de um problema que os próprios alunos levantaram dentro de suas realidades. Nos primeiros dias de aula, como professora de tecnologia, eu fui saber um pouco mais com os alunos sobre os problemas que os cercavam. E uma das questões primordiais que eles me colocaram, foi a questão do lixo. Como professora de tecnologia percebi, então, que não adiantava tratar outra questão, sem abordar essa que para eles era fundamental.

2. Como foi a receptividade e o envolvimento dos alunos e da comunidade diante desse desafio?

No começo não foi fácil, não houve uma receptividade tão grande. Com o passar do tempo, as famílias das crianças foram entendendo a importância desse trabalho para essas crianças e foram aderindo. Convidei os pais para as primeiras aulas públicas, mas era muito raro ter alguém. Compareciam um ou dois pais. Com o passar do tempo, vendo o interesse e a empolgação dos alunos, com as feiras de tecnologia, começamos a integrar a comunidade de um jeito muito natural. Hoje vemos toda a comunidade envolvida e uma grande receptividade com o trabalho e, realmente, uma integração com os moradores.

3. Quais as principais dificuldades que você encontrou durante o processo e como foi possível transpor os obstáculos?

A grande dificuldade que encontrei foi a falta de apoio, tanto dos professores, porque aconteceu uma mudança cultural, tanto da comunidade por não entender a importância desse trabalho na vida dessas crianças. Lembro que no começo, a coordenadora da época olhou para mim e disse que nunca havia imaginado uma aula de informática fora do laboratório de informática. Então, vemos que essas questões são absolutamente culturais. E essas dificuldades foram vencidas, sanadas a partir do momento em que os alunos se sentiram pertencentes a essas ações.

4. Como você trabalha a Robótica em sala de aula?


O trabalho de Robótica em sala de aula passa por algumas etapas. O projeto é trabalhado dentro de aulas regulares, de 45 minutos cada, e atende os alunos do 1o ao 9o ano do Ensino Fundamental – Anos Iniciais e Finais.
Inicialmente, realizamos aulas públicas abertas à comunidade, por meio de um percurso idealizado pelos estudantes, no qual nós sensibilizamos sobre a questão da sustentabilidade e também sobre os 3Rs: reciclar, reduzir e reutilizar. Neste percurso recolhemos muitos materiais: lixo eletrônico, materiais de sucata, plástico, papelão, alumínio, tudo o que encontramos. Depois, levamos esse material para a escola, lavamos, separamos e pesamos, para poder verificar o quanto conseguimos retirar das ruas.

5. A partir desse material recolhido começa o planejamento e acontece a interdisciplinaridade?

Sim. Em um terceiro momento, exercemos o pensamento científico, o pensamento crítico, por meio de pesquisas em que os alunos idealizam o que irão produzir com o material retirado das ruas. A produção pode ser de interesse pessoal ou coletivo, feita em grupos de quatro ou cinco alunos. Então, os alunos estabelecem um roteiro do que eles gostariam de produzir com este material. A partir de então, vem o momento dessa construção, que pode ser a partir de aulas de programação, nas quais os alunos vão programar aquilo que eles pretendem construir, ou parte para a construção do material físico que vai agregar os componentes eletrônicos, motores, sensores, jumpers, conectores. E, após todo esse trabalho, essa construção, existe o momento de compartilhar a produção por meio da feira de tecnologias que será aberta ao público. É uma maneira de integrar a escola e a comunidade e sensibilizar a comunidade sobre o que eles fizeram com aquilo que retiraram das ruas.

6. A tecnologia faz parte da educação e ganha cada vez mais espaço. Qual a sua opinião sobre a Robótica no currículo escolar, tanto em escolas públicas quanto em particulares, e o que essa atividade agrega no desenvolvimento dos alunos?

Acredito que a tecnologia é uma propulsora ao permitir que os alunos despertem para a aprendizagem. Especificamente, no caso da Robótica acredito que ela é uma grande aliada da educação, por permitir, por meio da resolução de problemas, que esses alunos trabalhem a questão interdisciplinar. Ou seja, em cima de um problema real, eles conseguem trabalhar com todas as áreas do currículo, de forma integrada. Outro grande ganho da Robótica é você perceber que o aluno é capaz de trabalhar com resoluções de problemas, colaboração, raciocínio lógico, com pensamento científico, com relações socioemocionais, coisas que são fundamentais para a vida de hoje, preparando esse aluno, então, para atuar no mercado de trabalho.

7. A Robótica muitas vezes é vista como algo caro e inacessível, principalmente se colocarmos em perspectiva os modelos comercializados. A Robótica a partir de sucatas e com apelo sustentável desmistifica um pouco essa ideia?

Realmente no começo eu sofri muito com isso, fui criticada por acreditarem que eu estava fazendo artesanato e não ensinando Robótica. Então, esse trabalho é uma grande quebra de paradigma, de olhar para materiais não estruturados e poder também trabalhar com sucata e desmistificar esse uso. Acredito muito que a Robótica é um ensino para todos e a minha maior luta neste momento é fazer com que o trabalho de Robótica com sucata se torne uma política pública.

8. Quando você percebeu que havia potencial para levar o projeto a participar de um Prêmio Internacional?

O trabalho ganhou alguns prêmios nacionais, foi vencedor do Prêmio Professores do Brasil, finalista na Premiação Claudia, venceu o desafio de aprendizagem criativa do MIT. Isso fez eu querer me inscrever em uma premiação internacional, não para ser já classificada, mas para verificar justamente os requisitos de um prêmio internacional. E nós tivemos, então, a honra de ficar entre os dez melhores trabalhos no mundo.

9. Qual foi a sua reação quando soube estar entre os finalistas e qual a sensação de representar o Brasil em meio a tantos outros profissionais de educação do mundo todo?

Fiquei muito feliz por representar o Brasil e colocar nosso país neste cenário internacional, por ser uma professora de escola pública, que trabalha com tecnologia, a primeira professora mulher a estar em uma final desse porte. Então é uma grande responsabilidade também, e acredito muito que esse prêmio é para repensarmos a nossa educação.

10. Como foi participar desse momento de premiação e o que você leva para a sua vida de todo esse trabalho?

Foi uma grande emoção. Primeiramente, por poder conhecer professores de todos os cantos, todos com um engajamento muito forte na área da educação. Depois, porque nunca ficamos iguais perpassando por uma premiação desse porte, começamos a dar valor a outras coisas, a pensar e querer realmente uma transformação nem nossa educação. O que eu levo para a vida é que não podemos nos deixar vencer pelo lugar onde estamos. Algo muito forte em mim, é quando sempre digo aos meus alunos que não é esse lugar de extrema pobreza que vai determinar o que eles serão na vida. São eles. Então, a grande lição que tiro disso é que podemos ter qualidade e equidade na educação pública brasileira.

 (foto: arquivo pessoal)


“Eu acredito muito que a Robótica é um ensino para todos
e a minha maior luta neste momento é fazer com que o trabalho de Robótica com sucata se torne uma política pública".

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