22 outubro, 2018

Entrevista: Renato Casagrande


Conferencista, palestrante e consultor em Educação e Gestão, Renato Casagrande é referência nacional na formação de professores, gestores e na geração de resultados para instituições educacionais (públicas e privadas).  É também doutorando em Educação, pela Universidade de Aveiro (Portugal). Mestre e bacharel em Administração, pela Fundação Getúlio Vargas. Licenciado em Matemática. Especialista em Recursos Humanos, Gestão Educacional, Mentoring & Coaching. Tem formação em Liderança Educacional, pela PennState University (EUA).
Nesta entrevista, exclusivamente concedida ao Blog Impressão Pedagógica, ele fala sobre os caminhos da nossa educação. Confira:


Professor, vivemos um momento de grandes transformações na educação por conta da tecnologia. Como você vê essa velocidade de informações e como isso impacta na educação brasileira?

Sem dúvidas, vivemos em um momento de grandes transformações. Na verdade, elas sempre ocorreram, mas o que temos visto, principalmente nos últimos 30 anos, foi uma velocidade sem precedentes na história da humanidade. Essas mudanças são impactantes também para nós, educadores, e tornam-se cada vez mais complexas para o contexto educacional. Justamente por se tratar de uma instituição formadora de pessoas, a escola não pode ficar refém desta mudança pregada e vivida pelo mercado. Afinal de contas, quando formamos cidadãos, precisamos pensar em formar pessoas críticas. O problema que se coloca é que a escola está sempre atrasada e não consegue acompanhar essas mudanças.
Por outro lado, entendemos que é difícil para as instituições carregarem a bandeira da vanguarda nos episódios de transformação. Porque, hoje, quem dita as regras e carrega essa bandeira é o mercado, que tem como objetivo maior o lucro. A escola não pode ficar refém deste modelo.
Entretanto, nós identificamos nas instituições e nos educadores uma certa dificuldade em promover esta mudança. Isso tem muito a ver com a cultura organizacional, com o modelo e, às vezes, com a resistência dos agentes educacionais. Essa resistência não se dá apenas pelos atores internos, no caso, professores e gestores, mas também pelos pais, que têm como referência o modelo de escola que tiveram, a forma como estudaram, e assim passam a ter medo de perder essas referências ultrapassadas.
Em contrapartida, quando falamos da resistência dos educadores, inclui-se a falta de preparo, de formação para lidarem com os processos de inovação nas escolas. Por isso, temos muito o que investir nessa capacitação para que eles estejam preparados.


O perfil do aluno também mudou? Quais são as demandas dessa nova geração de alunos para a educação? 

O perfil dos alunos mudou. Estamos vivendo em uma nova realidade com relação ao corpo discente das escolas. Hoje o aluno é mais ativo, mais público e mais crítico. Em termos, mais inteligente, inclusive, porque nós temos pesquisas que demonstram que o nível de quociente intelectual individual destes alunos é bem maior que em gerações anteriores. Atualmente, temos um perfil de estudante diferente, que exige uma nova postura da escola, tanto em termos de metodologia, quanto em termos da prática de professores, estrutura etc. Logo, as demandas que toda a sociedade tem para atender a essa nova geração de pessoas, com novos comportamentos, novas habilidades, novas expectativas, têm gerado uma grande discussão no contexto educacional. Aqui começamos, sempre mais, a nos questionar: Qual é a escola que queremos? Qual escola estamos construindo? Quais as perspectivas em relação a essa nova geração de alunos? Assim, temos aí uma realidade bastante complexa, em razão deste perfil de aluno que tem exigido dos educadores uma desconstrução, obrigando-os a refletir cada vez mais sobre a escola que queremos e precisamos, no sentido de preparar o estudante para um futuro incerto. Quando estudamos essa nova perspectiva na atual geração de alunos, é importante destacar alguns dados. Estima-se que cinquenta por cento dos empregos atuais deixarão de existir nas próximas décadas. Sessenta e cinco por cento das crianças que entram na escola hoje trabalharão em funções que ainda não existem. Diante dessa nova realidade, precisamos desenvolver nas crianças competências para lidar com um futuro muito incerto e com as muitas mudanças que acontecerão. Elas precisam aprender a aprender e aprender a pensar.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) pretende promover uma série de mudanças na educação brasileira, em todos os níveis de ensino. O que se pode esperar da BNCC?
Como todo educador, espero que a Base Nacional Comum Curricular realmente promova mudanças. No entanto, como educador com muitos anos na vida educacional, já calejado, lembro que o Brasil vive de reformas no ensino e de programas inovadores há muitos anos. A cada seis ou oito anos, temos um programa novo voltado para a educação.
Corremos o risco, e tememos, que a BNCC seja mais uma novidade a qual carece implantação. Entretanto, se bem implantada, a BNCC promove um certo nível de justiça dentro da escola, afinal ela garante uma equidade e, pelo menos, prevê que os alunos de todo o Brasil tenham uma base comum e, portanto, uma certa igualdade nos currículos. Respeitando as diferenças regionais, as características de cada escola, mas, pelo menos garantindo que alguns conteúdos fundamentais sejam trabalhados em todas as escolas do nosso país. Esse talvez seja o maior benefício da BNCC, associado também ao desenvolvimento de competências sociais éticas, emocionais, que, na verdade, estamos há um bom tempo discutindo e agora estão descritas na base e exigirão da escola implantação.

Qual o impacto da BNCC na atuação e na formação dos professores?

Terá um grande impacto. Ela organiza a estrutura curricular e os professores precisam ser bem capacitados e bem formados, tanto para participarem da construção do currículo como para implementar este currículo.
Acreditamos que a BNCC vai contribuir, inclusive, com o desenho dos programas de formação de professores. Agora fica mais clara para os gestores, tanto dos sistemas educacionais das mantenedoras de ensino, como das escolas, a organização dos programas de formação. Primeiro, realizando uma avaliação de quais são as competências mais necessárias ou o que o professor tem menos conhecimento, ou mais dificuldade de colocar em prática. A segunda questão é que a partir dessa avaliação será possível desenhar o programa de formação para que todas as competências descritas na base sejam contempladas.

Quais os principais desafios para os gestores escolares, tanto na área pública quanto na particular, frente a Base?

Acreditamos que os principais desafios para os gestores educacionais, tanto públicos, quanto particulares em relação à BNCC, é a capacidade de organizar os programas de desenvolvimento do corpo docente, de organizar seus currículos, de promover discussões, bem como o trabalho da organização curricular e, finalmente, a implantação deste currículo.
Cabe aos gestores a responsabilidade de entender bem a base. O gestor é o líder do processo, ajuda na construção do programa de formação dos professores, organiza os grupos para discussão dos currículos em si e, por fim, a implantação desses currículos desenvolvidos a partir da BNCC. Ou seja, é um processo complexo, que vai exigir um bom preparo e uma grande liderança desse profissional para que realmente a BNCC seja implantada.

 Com todo o legado de várias políticas públicas equivocadas, como a escola vai responder a essas novas exigências da educação?

Cada vez mais, os educadores estão mais descrentes quanto à implantação de novas políticas públicas. Percebemos que o educador está, como se diz, um pouco com o pé atrás. Porque a BNCC foi aprovada em um momento tenso da política brasileira e isso gera certa divisão nas opiniões com relação ao sucesso e a legitimidade da base. Embora ela tenha sido discutida há muitos e muitos anos, o momento da implantação gerou alguma desconfiança por parte dos educadores e, também certa crítica, como é normal, afinal de contas é uma construção complexa e temos pontos divergentes que suscitam esta discussão. No entanto, acreditamos que o educador, de forma geral, vai responder positivamente à implantação , principalmente se houver lideranças fortes nas escolas capazes de fazer a gestão deste processo, garantindo uma grande mobilização por parte dos educadores. Para que isso aconteça, precisamos de lideranças fortes, sejam diretores de escolas, coordenadores pedagógicos ou mesmo dirigentes municipais e estaduais de educação.

A BNCC para o Ensino Médio ainda gera muitas discussões. Qual o ponto mais sensível das propostas, no seu ponto de vista?

É uma questão bastante complexa, porque antes de discutir sobre a BNCC, nós precisamos discutir sobre a Reforma do Ensino Médio. Como a Reforma do Ensino Médio é extremamente importante e também urgente, precisamos lembrar de que a sua implantação e a forma como foi proposta no seu processo final e aprovada, gerou muita revolta e polêmica por ter sido proposta como medida provisória. Segue-se a isso o fato de não ter uma grande aceitação pelos educadores e professores do Ensino Médio e, até mesmo, por parte do alunado. É importante lembrar que tivemos muitas ocupações em escolas e isso gerou um desgaste imediato na proposta do Ensino Médio.
O segundo ponto, ainda muito obscuro, é como serão implantados estes itinerários, com relação aos caminhos que os alunos poderão optar. Sabemos que a essência desta proposta é que o aluno participe da construção do currículo e nós temos 5 frentes nesta construção. Muitas escolas têm dificuldades nesta implantação. Não são raros os casos em que as escolas têm poucos alunos nas turmas neste segmento. Quem vai bancar a possibilidade de abrir 5 caminhos diferentes, 5 formações diferentes? Isso tem um custo: estrutura física, professores, salas, laboratórios para, às vezes, atender poucos alunos.
Então, apresenta-se uma questão que ainda não foi conjugada: a questão econômica. Quanto custa para implantar esse modelo? Corremos o risco de comprometer este projeto em locais, municípios, escolas que tenham na verdade menos condições de ofertar o programa em sua integralidade. Como podemos condenar alguns alunos a não terem a possibilidade de escolher o caminho alinhado com a sua vocação e suas habilidades?
Com relação a BNCC é mais complexo ainda porque ela é muito criticada. Ainda está incompleta, e pensamos ser difícil conseguirmos a aprovação da BNCC do Ensino Médio do jeito que ela está, visto que é preciso estudar junto com a BNCC estes caminhos itinerantes e também a proposta do Enem, da avaliação do Ensino Médio, da entrada nas universidades e vestibulares. Acreditamos que é ainda mais complicado por ser um projeto muito célere por parte do governo e que, ainda, gera muitas dúvidas na sua implantação.

Para finalizar, há alguma outra consideração acerca deste futuro mais próximo para nossa educação?
Sim, e nossas considerações ainda estão relacionadas ao Ensino Médio e a BNCC, porque vivemos em um momento tão tenso e incerto em nosso país, que os educadores ficam sempre aguardando para ver o próximo governo e, a partir de então, dizer se as coisas vão funcionar ou não. Isso é resultado do que vivemos no Brasil. Não temos políticas de Estado. Temos Políticas de Governos. Na verdade, de um grupo de partidos políticos que se juntam e que traçam uma proposta, tão incerta e tão insegura que em uma eleição sentimos a sua fragilidade a ponto de pensarmos se vai ou não funcionar, se será implementado ou não. Esta é, talvez, a parte mais crítica destas propostas.
A dúvida que fica é: de fato essas propostas serão validadas, endossadas, legitimadas pelas novas equipes que assumirão o Ministério da Educação? Tanto para a BNCC do Ensino Fundamental, Educação Infantil ou do próprio Ensino Médio? Essa é a preocupação. Acreditamos que nossos futuros governantes terão a responsabilidade de discutir com toda a população e fazer o melhor para que possamos garantir uma educação de qualidade.



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