11 janeiro, 2018

Doutora fala sobre empoderamento de crianças e adolescentes na escola


Para cumprir um papel completo na educação, as escolas necessitam buscar novas metodologias para enriquecer o aprendizado. Soraia Schutel, doutora em Administração pela UFRGS na área de Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade e pesquisadora no Brasil e exterior sobre Aprendizagem Transformadora para o Desenvolvimento Sustentável, concedeu uma entrevista ao Blog Impressão Pedagógica, falando sobre esse e outros desafios da educação. A profissional também é especialista em Psicologia Social pela Universidade estatal de São Petersburgo (Rússia) e possui experiência acadêmica e profissional em mais de 25 países. Confira a entrevista a seguir.


Impressão Pedagógica (IP): Qual a importância de discutir sobre os formatos de aprendizagem

Soraia Schutel (SS): Atualmente percebe-se em nossos jovens uma lacuna entre o saber, fazer e ser, o que se deve a vários fatores. O primeiro deles é o modo de mensurar resultados. O sistema educacional brasileiro é, sobretudo, quantitativo e conteudista, onde se mede eficiência e qualidade do ensino por notas das provas e exames como Enem e Enade. A formação intelectual é fundamental, mas não suficiente, pois não abrange a integralidade humana, como as dimensões emocional e espiritual.

Um segundo fator está relacionado às necessidades da sociedade atual. Não estamos mais na era em que o diferencial era conseguir apertar mais parafusos por minuto, característico do início do século passado, mas vivemos em uma sociedade que requer inovação e criatividade para ser competitiva. Para se atualizar não é suficiente adotar recursos tecnológicos dentro da sala de aula, mas sim buscar formar seres humanos integrais.

Um terceiro fator é que não formamos nossos alunos para a vida. Pois na prática, o que se verifica é que os jovens estão saindo do sistema universitário sem saber o que querem da vida, sem conhecer a si mesmos e sobretudo sem as habilidades socioemocionais como cooperação, resiliência, saber lidar com perdas, respeito aos mais experientes, estabilidade emocional, amabilidade, que são fundamentais para o relacionamento social e para ter uma vida mais plena e de valores.

Agregar habilidades socioemocionais na educação básica e universitária já é política pública em países como o Canadá. Em uma pesquisa que o governo canadense realizou junto a líderes comunitários e líderes de empresas, foram identificadas cinco características e cinco habilidades necessárias aos alunos. As características são: resiliência, criatividade, inovação, capacidade de tomar boas decisões, cooperação e consciência global. E as habilidades: tomada de decisão ética, pensamento crítico, comunicação, fluência no mundo digital, prontidão para encarar o mundo tanto em relação às aspirações profissionais quanto em relação às experiências de vida.

IP: O “empoderamento” individual de crianças e adolescentes pode diminuir desigualdades sociais?

SS: A desigualdade social em nosso país é resultante de fatores histórico-coloniais, corrupção em todos os setores de nossa sociedade, políticas públicas ineficientes, falta de planejamento familiar, valores centrados no consumo desenfreado etc. Nesse contexto, a educação é uma arma poderosa para combater a desigualdade social e contribuir para a autonomia das futuras gerações. Entre as habilidades socioemocionais visando o empoderamento, a responsabilidade é, no meu entender, uma das mais importantes. Quando temos indivíduos responsáveis, cientes das consequências de suas ações, de que cada ação possui uma reação, de que a melhoria de sua vida depende também de suas ações e escolhas, podemos contribuir para a autonomia de nossos alunos e para que almejem uma vida melhor por meio de seus esforços.

IP: Quais práticas podem ser aplicadas em sala de aula?

SS: Não devemos abandonar o estudo dito clássico, pois arriscamos a entrar na educação do “achismo” e abandonar o enorme conhecimento que já foi gerado pela humanidade. O importante é buscar formar a integralidade humana, que possui mais dimensões que aquelas que estamos focados hoje. Assim, temos que buscar novas metodologias e práticas pedagógicas que façam o aluno se conectar com as coisas simples da vida e com profundos valores humanos.

Por exemplo, no Japão as crianças auxiliam nas atividades de limpeza da escola como forma de respeito e cuidado com o local em que aprendem. Isso ajuda a desenvolver a humildade, a reconhecer o valor do trabalho, a cuidar mais do próprio espaço. As crianças e jovens de hoje, em sua maioria, não sabem realizar atividades básicas, e essas atividades ensinam a autonomia de como valorizar o próprio espaço, saber cozinhar, fazer a própria horta etc. Não é apenas a atividade em si, mas o fato de criar sinapses de autonomia e de capacidade resolutiva, em que a pessoa sabe que é capaz, e se não é, sabe ter a humildade de recorrer a quem sabe.

Leonardo da Vinci, quando entrou na Bottega do Maestro Verrocchio, era auxiliar de limpeza e de organização do ambiente de trabalho. Limpava os pincéis e, aos poucos, foi sendo inserido na aprendizagem da alta técnica artística, que rapidamente dominou. Ou seja, não podemos subestimar esses conhecimentos mais “simples”. Assim a escola torna-se uma escola para a vida. E é muito importante também estimular o aprender a aprender. A escola é passageira, nossos alunos crescem, vão para o mundo. Quando o aluno é contagiado pelo amor ao saber, ele se torna professor de si mesmo, busca as oportunidades de crescimento ao longo de sua vida. Nós, professores, somos mediadores e facilitadores dessas habilidades.

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