11 janeiro, 2018

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Estudos apontam que para uma formação integral é necessário incluir no cotidiano escolar aprendizados socioemocionais de maneira explícita

Reduzir a pobreza, baixar a taxa de desemprego, diminuir a criminalidade e o uso de drogas. Reduzir os conflitos das cidades são alguns dos benefícios visíveis na sociedade apontados em pesquisas realizadas sobre o aprendizado de competências socioemocionais nas escolas. Os alunos que recebem atenção em aspectos emocionais durante a formação na educação básica conseguem ser melhores cidadãos e, ainda, aprender melhor matemática, português e outras disciplinas. Eles também estarão preparados para escolher suas profissões e lidar com os colegas durante o dia a dia escolar e, futuramente, no ambiente de trabalho, sendo pessoas mais conscientes e éticas.

De acordo um estudo desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna (IAS), a educação para o século 21 exige a ampliação da fronteira do que se entende por aprendizagem e passa pelo desenvolvimento desses outros aspectos que, hoje, já podem ser mensurados e ensinados intencionalmente na escola.

Segundo o IAS aprender competências socioemocionais nas escolas é relevante para garantir os direitos humanos, previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos de formar cidadãos autônomos, com acesso à educação, entre outros direitos. Também pelo impacto benéfico que apresentam em nossas vidas. O aprendizado de competências socioemocionais “dão aos alunos condições a melhorar a inserção no mercado de trabalho, a se tornarem cidadãos mais politizados, saberem lidar adequadamente com conflitos e a melhora econômica e socialmente”, explica Daniela Arai, analista de projetos da Área de Avaliação e Desenvolvimento do IAS. E, por fim, contribuem nas aprendizagens cognitivas como atividade-meio. Assim as crianças e adolescentes podem aprender com mais qualidade e segurança os conteúdos das disciplinas regulares.

Entre as famílias de competências socioemocionais que devem ser introduzidas no aprendizado cotidiano dos alunos, duas são apontadas como cruciais para atingir resultados importantes, segundo estudo do IAS. A conscienciosidade, que inclui características relacionadas à responsabilidade, à organização e ao foco; e a abertura, que significa o aluno estar aberto a novas experiências e opiniões, ter resiliência, aceitar que o erro faz parte do aprendizado. “Apresentam em média 30% a mais de aprendizado em matemática em um ano letivo quando comparados aos que têm menos conscienciosidade. A proporção é a mesma para o desempenho em Português quando se trata de alunos com mais abertura a novas experiências e protagonismo”, aponta os estudos.

Qual o papel de cada um?

Cabe aos gestores das escolas, que acreditam na visão, incluir os conceitos no currículo, planejar atividades e promover a formação dos professores de maneira continuada. Já aos professores, cabe a responsabilidade de aplicar os conceitos de maneira explícita para que o aluno tenha clareza de que está aprendendo competências socioemocionais e quais são elas.

“É papel de todas as instituições educadoras, incluindo as famílias e as escolas, promover esse espaço de aprendizagem de competências socioemocionais”, acredita Daniela. Segundo a analista do IAS, a coordenação pode inverter a relação das conversas com os pais. Em vez de promover diálogos sobre problemas com os filhos, usar o momento para ouvir os pais sobre suas dificuldades e criar um vínculo para que eles possam saber como está o aprendizado de seus filhos. Assim, é possível promover uma educação mais personalizada, mesmo que o aluno esteja em um contexto coletivo. “Quando a escola abre outro canal para os pais, eles percebem uma parceria ali”, afirma Daniela.

“Quando falamos de habilidades socioemocionais, estamos falando de educar seres humanos e não apenas engenheiros, administradores, médicos. O desafio de nós, professores, é conseguir trazer essa visão mais humanista para dentro do sistema, que ainda é avaliado quantitativamente [por números]”, complementa Soraia Schutel, professora, doutoranda em Administração pela UFRGS na área de Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade e pesquisadora no Brasil e exterior sobre Aprendizagem Transformadora para o Desenvolvimento Sustentável.

Como fazer isso? Não deixando de lado as habilidades cognitivas, mas incluindo-as nas atividades de modo que fique claro para os alunos. Uma maneira é promover exercícios desafiantes, elaboração de projetos (como a Robótica), problematização ou aprendizagens colaborativas.

De acordo com Soraia Schutel, ao invés de apontar defeitos, o professor deve auxiliar os alunos a identificar seus pontos-força, seu valor como pessoa. Por meio desse contato humano é possível mudar vidas e transformar realidades. “Enquanto professores, podemos deixar um legado. Acredito que nós somos as principais chaves de mudança e qualificação da sociedade”, finaliza.

As atividades podem ser divididas em grupos, em que os alunos ajudam uns aos outros, trabalhando o conceito de cooperação. Pode ser vendo um filme que transmita uma mensagem de gratidão, ou ainda, um trabalho em times, em que cada participante saiba de uma informação diferente e que, com a colaboração, seja possível construir o resultado final.

Uma alternativa também é diversificar a avaliação, com ferramentas de verificação contínua sobre o aprendizado. O importante é assegurar aos alunos quatro aprendizagens que concorrem para a formação de cidadãos mais preparados para enfrentar os desafios do mundo, conforme orienta o Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século 21, organizado por Jacques Delors. São elas: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a conhecer e aprender a fazer.

O que são competências socioemocionais?

Competências socioemocionais são entendidas como a capacidade de mobilizar, articular e colocar em prática conhecimentos, valores, atitudes e habilidades para compreender e gerir emoções, estabelecer e perseguir objetivos, sentir e demonstrar respeito e cuidado pelos outros, trabalhar em equipe, tomar decisões autônomas e responsáveis, e enfrentar situações adversas de maneira criativa e construtiva. As competências cognitivas e as socioemocionais relacionam-se estreitamente entre si. Pesquisas revelam que alunos com competências socioemocionais mais desenvolvidas apresentam maior facilidade de aprender os conteúdos escolares. Fonte: Instituto Ayrton Senna.

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