15 agosto, 2017

Será que os alunos querem as metodologias ativas?




Alvaro Martins Fernandes Júnior

O tema metodologias ativas está muito em voga contemporaneamente. Após (re)leituras de pensadores do século passado, como John Dewey, Vigotsky e Piaget, ele emerge como algo de extrema inovação, e, principalmente, como solução para todos os problemas de aprendizagem em nosso país.

O professor ao fazer o uso de metodologias ativas, um conceito que carece de limites e definições, faz com que o aluno “volte” a ser o centro do processo de ensino e de aprendizagem, ou seja, o mestre provê mais “autonomia” ao aluno para que ele próprio guie seu caminho rumo as aprendizagens que deseja. Na teoria, as metodologias ativas referem-se a todas aquelas que se diferem do modelo tradicional: o professor falando e os alunos escutando. Essa nomenclatura acaba por tentar inserir, em um mesmo pacote, toda a inovação pela qual a educação vem passando. Eu não consigo aprender pelo meu aluno, o processo de ensino é meu e o de aprendizagem é dele, mas eu também aprendo, e ele também ensina, mas cada um abstrai o conhecimento que lhe convém.

Todo professor sabe que existem conteúdos que devem ser apresentados à maneira “tradicional”, mas existem outros que podem ser trabalhados de maneira diferenciada. A questão que se faz é: todos os alunos querem esse ensino mais “ativo”? ou ainda são “conservadores” e preferem escutar o professor falar?

Será que os estudantes estão preparados para “retomar” as rédeas? Eles querem assumir o volante de sua própria aprendizagem ou ainda preferem um professor mais presente que expõe conteúdos ao invés daquele que organiza a turma para exposições por parte dos aprendentes, as quais chamam erroneamente de seminários?

Compreender essa nuance consistiu em um dos pontos investigados por uma pesquisa realizada pela equipe interacadêmica do Eixo RH na Academia, da ABRH-PR, em parceria com a
Diferencial Pesquisa. Foram pesquisados 2027 alunos de 11 instituições de ensino superior (IES), em Curitiba, entre outubro de 2015 e maio de 2016; os estudantes eram de cursos de graduação e de pós-graduação (especializações e MBAs) das áreas de administração/gestão, contabilidade e engenharia. O objetivo da iniciativa foi gerar conteúdos e insights de impacto, que contribuam com a atuação das Instituições de Ensino Superior, promovendo melhorias e avanços contínuos na formação dos estudantes da região.

A pesquisa demonstrou que mais de 65% dos alunos de Bacharelados e Licenciaturas preferem que o professor exponha os conteúdos, isso também é uma tendência em pós-graduações “latu-sensu” em que mais de 57% também preferem que o professor exponha os conteúdos. Os alunos tecnólogos caminham um pouco na direção contrária, 47% afirmam preferir que o professor exponha os conteúdos.

Essa preferência por parte dos alunos não tira deles a autonomia, afinal, em uma questão onde se foi requerido para os alunos concordarem ou discordarem com alguma afirmação, 40% concordaram totalmente com a afirmação “Na minha escola, o estudante é visto como um ator ativo no processo de ensino.”, deste montante 34% estão na faixa de alunos que preferem que o professor exponha o conteúdo ao invés de organizar a turma em seminários, ou seja, professor que expõe conteúdo não tira a autonomia do aluno. Apenas 2,3 % dos alunos discordaram totalmente da afirmação, sendo que 50% deste composto por aqueles que preferem que o professor exponha os conteúdos. Aqui surge um ponto de inflexão, afinal, estes não se consideram vistos como ativos no processo, mas o mesmo tempo preferem que um professor de mais aulas expositivas.

Outro número importante é no que tange ao local em que o professor expõe os conteúdos, pois 65% dos alunos da graduação (bacharelado e licenciatura) preferem os conteúdos passados em sala de aula ao invés de serem tratados em outros espaços, como laboratórios ou organizações. Esse número pode contribuir a questionar e problematizar a eficácia dos métodos ativos em que o professor disponibiliza um material prévio ao aluno (fora da aula) para que na aula o texto seja apenas problematizado. Na pós-graduação, onde se supõe que o aluno quer mais da prática do mercado, a tendência segue alta na mesma direção da graduação, mais de 57% preferem que o conteúdo seja compartilhado em sala de aula. Os alunos dos cursos tecnológicos, em sua maioria, 63% preferem conteúdos expostos fora do ambiente formal da sala de aula.

Sempre fui muito crítico desse uso mercadológico agressivo do termo, pois entendo que toda aprendizagem é ativa, assim como todo método, o professor não é um ser humano fechado em si mesmo, nem o aluno. Uma aula não acontece sem a atividade do professor, nem do aluno.

O objetivo do texto não é desprezar todo o caminho ao qual a educação vem percorrendo para se reinventar e se adaptar a essa contemporaneidade que está, no momento, em um estado, aparentemente permanente, de crise. Seu objetivo é, ao contrário, o de trazer à tona também, toda a complexidade ao qual o processo educativo se envolve.

A literatura acadêmica sobre metodologias ativas costuma desprezar toda a história de luta dos professores nas salas de aula, que a anos praticam a verdadeira metodologia ativa, se utilizando de mil maneiras para que se aluno aprenda, e que hoje tem de escutar que as metodologias ativas são algo inovador e que irá resolver muitos dos problemas da aprendizagem.

Na educação não podem existir receitas que se apliquem a todos, a sua complexidade deve ser entendida e respeitada. A pesquisa mostra que, pelo menos em Curitiba e região, o professor ainda é a referência no processo de ensino e de aprendizagem, mas isso não tira do aluno a sua autonomia.

O que deve ficar do exposto é sobre a necessidade de que a educação não pode ceder a modismos mercadológicos, e sim focar em ações de garantia de sucesso acadêmico do aluno. A educação nunca caminhou a passos largos, e embora ela não consiga acompanhar o ritmo frenético com que a sociedade avança, ela tem se mostrado aberta ao uso de novas abordagens, currículos e tecnologias.




Alvaro Martins Fernandes Júnior é professor na Escola Superior de Educação do Centro Universitário Internacional - UNINTER. Doutorando em Educação: Currículo pela PUC-SP. Mestre em Gestão do Conhecimento nas Organizações pela Unicesumar. É voluntário da ABRH/PR, integrando o Comitê Editorial do Eixo RH na Academia.

Um comentário:

Whatsapp Button works on Mobile Device only

Digite o que procura e pressione Enter para pesquisar