26 julho, 2017

Planejamento: primeiro passo para um ensino de sucesso


O dia a dia em sala de aula deve focar no desenvolvimento de competências importantes para o futuro dos alunos



Por Luciana Sálvaro

“Não há ventos favoráveis para quem não sabe para onde navega”. A citação de Lúcio Aneu Sêneca é uma das preferidas do Mestre em Didática das Ciências e professor de Física Vasco Pedro Moretto quando questionado sobre a importância do planejamento escolar - e a escolha tem um bom motivo: afinal, qual é o papel da escola na formação dos alunos? Quais as competências que esses estudantes devem desenvolver para se tornarem cidadãos críticos, aptos a se comunicar e interagir com o mundo?

A obrigatoriedade do planejamento escolar não é recente, mas a sua função foi, diversas vezes, direcionada para o caminho oposto de sua excelência. Na época de ditadura militar, ele se tornou uma ferramenta para acompanhamento do que os professores estavam disseminando em sala de aula - ou seja, tornou-se um instrumento regulador para evitar (ou reduzir) reflexões contrárias ao status quo. Entretanto, apesar da mudança do regime político brasileiro, muitos professores ainda não exploram todas as vantagens do planejamento, utilizando-o como um processo burocrático e não como um instrumento capaz de iniciar um movimento transformador na vida de seus alunos: promover a aprendizagem eficiente, com o desenvolvimento de competências importantes.

Moretto, que é autor do livro “Planejamento: planejando a educação para o desenvolvimento de competências”, comenta que para que o planejamento faça sentido é importante que o professor se baseie no que almeja que seu aluno aprenda. “O planejamento é muito mais do que uma distribuição de conteúdos com alguns objetivos e estratégias”, completa. O autor acrescenta que a simples distribuição de conteúdos conforme continuidade do que o material didático oferece é insuficiente para uma aprendizagem significativa, esta que tem como finalidade fazer com que os alunos compreendam e solucionem situações complexas. Com isso em foco, o trabalho do professor fica mais fácil, já que ele consegue organizar ideias e ações que precisa para ensinar os conteúdos.


Objetivos da educação atual


Segundo Moretto, a escola possui duas funções: conservar as saberes relevantes para compreensão do processo histórico evolutivo e transformar a sociedade por meio da busca de novas tecnologias, metodologias e conhecimentos. O modelo educacional em que o professor atuava como um simples repassador de conteúdos não tem mais espaço em uma sociedade que tem que acesso fácil e rápido às mais diversas informações. Muito mais do que guardar conteúdos, é necessário que o aluno saiba contextualizar as informações, seja crítico na recepção de novos dados e capaz de usar a criatividade como recurso para a resolução de problemas.

Em vista dessas necessidades, o professor deve planejar suas aulas com foco em conteúdos relevantes, utilizando estratégias que encantem o aluno e tornem a aprendizagem mais eficiente. Sobre o assunto, Moretto comenta que é necessário criar um vínculo emocional para que o aluno respeite e entenda a importância do que o professor está trazendo de assunto para a sala de aula. “O profissional deve mostrar competência e o aluno tem que confiar nele. O professor tem que mostrar a necessidade, mostrar que nem sempre estudar vai ser prazeroso, mas que é um esforço que vai selecionar o aluno para a vida”, diz Moretto. O autor também comenta que o papel do educador é incentivar o aluno para que ele se automotive, mas se o estudante não se engajar, a aprendizagem sofre nesse processo.


Planejando para o desenvolvimento de competências


Educar é permitir que os estudantes construam conhecimentos e desenvolvam as competências necessárias para interagirem de maneira consciente com a sociedade. E como efetuar um planejamento que permita essa aprendizagem eficiente? Moretto recomenda o uso do modelo para o desenvolvimento de competências que ele desenvolveu (modelo VMDC) como um norteador para esse processo, uma vez que ele lista os recursos necessários para a solução de qualquer situação complexa: conteúdos conceituais, habilidades, linguagens, valores culturais e administração do emocional.

Uma situação complexa é um episódio que se apresenta na vida de qualquer pessoa, podendo ser exemplificada no cotidiano de um aluno como a necessidade de redigir uma dissertação. Para ser competente nesse desafio, é importante que o estudante saiba mobilizar os recursos corretos para a missão, tais como: saber o que é uma dissertação (conteúdos conceituais), saber como estruturar uma redação (habilidades), escolher e utilizar as palavras corretamente para a fluidez do assunto (linguagem), contextualizar suas experiências e conhecimentos (valores culturais) e lidar com seus sentimentos de ansiedade, medo ou pressão (administração do pessoal). Dessa maneira, as competências são acentuadas e se supera o desafio com êxito.

Moretto ainda comenta que é imprescindível que o educador faça uma análise de conteúdo e solicite nas avaliações o que realmente será necessário para o futuro. “O professor tem que ter essa honestidade de saber e ele mesmo dizer o que é e o que não é relevante”, completa. Segundo o autor, ainda há docentes que transformam o momento da avaliação em uma prestação de contas, fazendo com que o aluno se limite a buscar o que ele acha que o professor quer de resposta, descaracterizando as finalidades educativas da escola. Nesse momento que entra a ética, um componente do modelo VMDC que é pano de fundo para qualquer processo de aprendizagem.

Vale ainda citar outro aspecto importante do planejamento: flexibilidade. Ter o aluno como protagonista da construção de seu conhecimento é tornar o processo de aprendizagem um momento de atividade, em que ele pode - e deve interagir com o professor. Por isso, o professor deve estar preparado para indagações que fogem de seu campo de conhecimento e ter “humildade intelectual” para aproveitar essas situações para engajar a turma para buscar em conjunto a informação. Para Moretto, a tecnologia é uma grande facilitadora já que é possível encontrar, quase que instantaneamente, o que se procura. Ele também reforçar que essa é uma ótima oportunidade para ajudar no desenvolvimento crítico dos alunos, apontando a importância de fontes confiáveis e como é necessário ter uma recepção crítica de novos conteúdos.



O professor tem que mostrar a necessidade, mostrar que nem sempre estudar vai ser prazeroso, mas que é um esforço que vai selecionar o aluno para a vida


Modelo Vasco Moretto para desenvolvimento de competências aplicado no planejamento de aulas


  1. Escolher a situação complexa (SC) para a qual os alunos devem desenvolver competência e quantas horas serão dedicadas a essa atividade
  2. Verificar os conteúdos conceituais que serão trabalhados para resolver a SC
  3. Listar as habilidades que serão desenvolvidas
  4. Elaborar lista com as palavras-chave (linguagem) que serão utilizadas
  5. Analisar o contexto social dos alunos para entender seus valores culturais e procurar trabalhar de maneira contextualizada
  6. Pensar em ações que podem estimular os alunos a aprender (administração do emocional)
  7. Programar estratégias que atendam à melhor solução para a SC
  8. Avaliar a aprendizagem em função dos pontos 2,3,4,5 e 6


Adaptação do capítulo desenvolvido por Vasco Moretto para “Educar aprendendo sempre”, das Soluções Educacionais Expoente


Luciana Sálvaro - Jornalista

Um comentário:

  1. Quando não planejamos nossos resultados somos sacrificados dos nossos ideais .

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