26 julho, 2017

Educando os jovens de hoje



Regras claras e entendimento do que os jovens gostam são ações que aproximam o professor dos alunos


Por  Luciana Sálvaro

Conectada 24 horas por dia, com fácil acesso à informação e ansiosa em receber as respostas instantaneamente: esse é o comportamento da geração atual de alunos, que impõe grandes desafios aos docentes para que consigam prender a atenção e mediar a aprendizagem. O problema ainda se torna maior porque grande parte dos professores não foi preparada para ensinar de uma maneira diferente, recorrendo com frequência ao padrão expositivo, que já parece não ter espaço onde a atenção flutuante reina, comportamento que faz com que a mudança de foco aconteça rapidamente. Assim como é feita a troca de telas no computador, com alteração entre programas e diversos websites, os jovens desconectam-se rapidamente do que estão vendo, partindo para a próxima atividade sem ter criado uma memória definitiva sobre o que estavam vendo.

Falando em computador, ele é apenas um dos adventos atuais da tecnologia sem os quais os jovens não vivem sem. Os smartphones são outras expressões dessa maneira de ser, que permite um fluxo intenso de comunicação e informações. Por meio desses dispositivos, os estudantes se relacionam com o mundo, experiência vivenciada de maneira ainda mais intensa pela Geração Z, composta pelos nascidos a partir de 1990, considerados como nativos digitais. A rapidez e a maneira colaborativa que esses jovens se relacionam contrastam com a rigidez padrão de uma sala de aula, em que o professor detém o conhecimento e o repassa, em uma via única e solitária.

A psicopedagoga e mestre em Educação Jane Patrícia Haddad comenta que essa mudança de relacionamento dos alunos com as informações demanda mais do professor, que deve adaptar sua dinâmica, didática e até tom de voz em sala de aula para promover uma mobilização do discente para a aprendizagem. Ela acrescenta que as gerações atuais são muito voltadas aos estímulos visuais, sendo essencial mesclar diversos elementos para gerar uma aprendizagem mais significativa. Teatro, música, vídeos, diversidade de textos e linguagens são alguns dos elementos que devem ser utilizados para esse fim, ajudando a dar sentido ao que está se tentando ensinar.

Haddad destaca que a relação de sentido é essencial para que os estudantes se engajem na aprendizagem: se o conteúdo não é de interesse e não faz parte de seus mundos, eles não visualizam um motivo para o aprender e a informação não se transforma em conhecimento. E para que essa transformação aconteça é necessário esforço, atenção, concentração e memória; é necessário que o aluno esteja presente e interaja, sendo mobilizado para aprender. “Os professores estão diante de um grande desafio, e precisam descobrir o que interessa esses jovens. Somente assim eles serão capazes de criar ‘links’ com os estudantes”, complementa a psicopedagoga.

Visualizando o mundo com outros olhos


Para cativar seus alunos e adentrar em seus mundos, Haddad fez uma maratona pelos canais mais famosos de youtubers e já teve contato com a literatura juvenil atual. Ela conta que, na época em que a trilogia “Crepúsculo” estava em alta, ela decidiu ler as obras e fez questão de levá-las para a sala de aula. Ela relata: “quando um aluno me perguntou se eu estava lendo e eu comentei que não estava entendendo nada sobre o livro, ele me deu uma aula. Quando eu assumi que eu não sabia, ele passou a ter uma outra postura. O que eu fiz? Eu criei um canal: fiz ele acreditar que tinha algo a me ensinar. E ele realmente tinha”.

Criar canais de conexão com os estudantes só é possível se o professor buscar entender um pouco desse novo universo, aproveitando a experiência para aplicar na aprendizagem dos conteúdos formais. Quando o aluno enxerga no docente alguém com quem ele pode trocar conhecimentos, ele se sente mais à vontade. Mas Haddad comenta que é necessário que não haja um juízo de valor do conteúdo, e sim, um direcionamento para uma recepção crítica partindo da realidade dos alunos.

A psicopedagoga também destaca que a relação dos alunos com os professores já não é vertical como era antigamente: de maneira horizontal, os discentes só veem seus mestres como autoridade se estes conquistam esse posto, sendo reconhecidos por suas atitudes, competências e habilidades.

“O aluno tem que olhar para o professor e achar que vale a pena aprender algo com ele. Senão, não tem aprendizagem. Hoje, eu só respeito se acho que vale a pena. A meninada até topa desligar o celular em sala de aula se o professor também o fizer. É uma autoridade horizontal que mexe em todo o processo de ensino e aprendizagem contemporânea”, complementa Haddad.

Sobre o assunto, a mestre em educação ainda realça que é importante que o professor combine as regras em sala de aula, deixando claro para o aluno o que pode e não pode ser feito. “Não adianta eu reclamar que o aluno usou o celular se eu não avisei que não pode. Aliás: é importante que se determine em quais situações ele poderá ser usado, já que o smartphone se tornou um item indispensável na vida dos jovens”, exemplifica.


O papel da família na aprendizagem contemporânea



Lidar com a frustração é uma das deficiências das gerações atuais, e, segundo Haddad, essa falta de desenvoltura começa no primeiro ambiente de aprendizagem, que é a família. Ela ressalta que, atualmente, muitas famílias consideram valores e atitudes como algo negociável, o que prejudica a noção de que é necessário esforço para a obtenção de resultados, não deixando claro que haverá muitos desprazeres na vida. “As famílias trabalham muito e entendem que têm que fornecer tudo. Elas não frustram e a aprendizagem não ocorre dessa maneira. Certas coisas não podem ser negociadas”, diz a psicopedagoga. Ela exemplifica casos em que os pais vão até à escola pedir para que a nota dos filhos seja alterada, sem entender o motivo da avaliação aquém da esperada. “A ideia é fazer com que o filho não se frustre, mas essa não é a vida”, complementa.

Para que a aprendizagem seja mais significativa, é importante que a família se aproxime da escola, e que também acredite no potencial da educação formal. Entretanto, a educação tem que ser vista com seu devido valor e como transformadora não só da vida dos jovens, mas do mundo. Haddad diz que “muitas famílias mandam seus filhos para a escola não porque acreditam, mas para acertar contas. Elas querem proporcionar tudo que não tiveram alcance, mas isso ainda não é um valor. Quem consegue ensinar esse sentimento, muitas vezes, é o professor”.

Mas como envolver a família no processo educacional? Haddad comenta que esforços como rodas de conversa, palestras e até pequenos manuais podem engajar os pais, repassando informações importante sobre imposição de limites, birras, rotinas, etc. Virando uma cultura da comunidade escolar, essas ações ajudam as famílias se reorganizarem, entendendo seu importante papel na educação formal de seus filhos.


Internet e smartphones: encontrando os alunos onde eles estão


Nenhuma tecnologia substitui as relações humanas, mas é exatamente por meio de dispositivos on-line que os jovens se comunicam e interagem com o mundo. Os meios digitais são importantes e influenciam o dia a dia dos alunos, tornando-os conectados, mas também distraídos. Por isso, é necessário que os meios de ensino sejam adaptados para provocar estímulos que retenham a atenção, utilizando-se da tecnologia e de suas facilidades como instrumentos. Haddad indica que imagens, músicas, vídeos (inclusive de youtubers) e mensagens de texto rápidas podem ser utilizadas em sala de aula como formas de repassar o conteúdo. Ela ainda reforça que a gamificação é uma ótima estratégia, envolvendo os alunos em desafios para chegar a um objetivo final.

Ao desenvolver um relacionamento por meio da tecnologia, os professores criam mais canais para se comunicarem com os alunos, abrindo oportunidades para os introvertidos receberem apoio sem se exporem, por exemplo. Além disso, ao utilizar os meios que os jovens já conhecem e possuem familiaridade, abre-se uma ponte para a criação de sentido, tornando o aprendizado ainda mais divertido e efetivo.

Sobre o assunto, Haddad ressalta: é importante que a tecnologia seja vista como um meio e não como um fim. “A tecnologia não é inimiga do professor. É necessário que o docente faça as pazes com ela e entenda que esse é um caminho sem falta”, completa. Dessa maneira, os professores conseguem ter mais recursos e possibilidades de se aproximar dos alunos, conquistando confiança e, assim, abrindo caminhos para que aprender seja algo significativo e que faça a diferença na vida dos estudantes.

* Luciana Sálvaro - Jornalista

Postar um comentário

Whatsapp Button works on Mobile Device only

Digite o que procura e pressione Enter para pesquisar